
NR-1 e Riscos Psicossociais: Guia Essencial para Empresas
A saúde mental no ambiente de trabalho tem se tornado uma preocupação crescente, impulsionada pelo aumento nos afastamentos relacionados a transtornos mentais e comportamentais. Diante desse cenário, a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) ganha ainda mais relevância, exigindo que as organizações adaptem suas práticas de gestão e promovam o bem-estar de seus colaboradores.
Este artigo visa fornecer um guia completo sobre a NR-1 e os riscos psicossociais, abordando desde a atualização da norma até as estratégias para uma gestão eficaz e estratégica da saúde mental no ambiente de trabalho.
O Crescente Impacto da Saúde Mental no Trabalho
O Brasil tem enfrentado um aumento alarmante nos afastamentos do trabalho relacionados a transtornos mentais e comportamentais (CID F). Análises estruturadas demonstram que a pandemia de COVID-19 intensificou essa tendência, com um aumento significativo nos transtornos ansiosos e depressivos.
Essa realidade expõe a necessidade urgente de mudanças nas práticas de gestão, prevenção e promoção de bem-estar nas empresas. Abordagens amplamente utilizadas sugerem que as organizações devem adotar uma visão mais integrada e preventiva em relação à saúde mental de seus colaboradores.
Particularidades do Setor de Vigilância e Segurança Privada
O setor de vigilância e segurança privada apresenta particularidades que o tornam especialmente vulnerável aos riscos psicossociais. A exposição constante a situações de estresse, como conflitos interpessoais, ambientes de risco (roubos, agressões, violência) e longas jornadas de trabalho, impacta diretamente a saúde mental dos trabalhadores.
Além disso, a cultura organizacional, que muitas vezes valoriza a disciplina e o controle emocional, pode reprimir a manifestação do sofrimento psíquico, contribuindo para a subnotificação de adoecimentos mentais e o aumento dos afastamentos tardios.
Estatísticas revelam que o setor de vigilância e segurança armada representa uma parcela significativa dos afastamentos por CID F, com um aumento expressivo nos benefícios concedidos por auxílio-doença comum (B31). Os principais motivos de afastamento incluem episódios depressivos, outros transtornos ansiosos e transtornos mentais e comportamentais devido ao uso de múltiplas drogas ou substâncias psicoativas.
NR-1: Organização do Trabalho e Riscos Psicossociais
A NR-1 desempenha um papel fundamental na organização do trabalho e na prevenção de riscos psicossociais. Diretrizes consolidadas indicam que a norma aborda questões como sobrecarga de trabalho, distribuição de atividades e liderança, que estão diretamente relacionadas às causas de afastamento por adoecimento mental.
Em agosto de 2024, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) publicou a Portaria nº 1.419, que atualiza a NR-1 e prevê a inclusão dos fatores psicossociais no gerenciamento e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Essa atualização representa um avanço importante na proteção da saúde mental dos trabalhadores.
Atualização da Norma e Prazos
A atualização da NR-1 entrou em vigor em maio de 2025. No entanto, o MTE concedeu um período de adaptação de um ano, durante o qual a fiscalização do trabalho atuará de forma orientativa, sem aplicação de penalidades.
Durante esse período, as empresas serão notificadas e deverão demonstrar, por meio de seu PGR, que estão trabalhando para identificar e mitigar os riscos psicossociais. A fiscalização do trabalho pode ser vista como um fator de auxílio, orientando as empresas na implementação das medidas necessárias.
Penalidades por Descumprimento
Após o período de adaptação, o descumprimento da NR-1 poderá acarretar penalidades. Os subitens alterados da norma são classificados como problemas de segurança, com valores de multa que variam de acordo com o porte da empresa.
Para empresas menores, com até 10 empregados, a multa pode ser de aproximadamente R$1.900,00. Para empresas de grande porte, com mais de 1.000 empregados, a multa pode ultrapassar R$5.500,00.
Implementando a NR-1: Um Guia Prático
Para se adequar à NR-1 e gerenciar os riscos psicossociais, as empresas podem seguir um roteiro prático, que inclui:
- Identificação dos riscos: Utilizar questionários validados, como o HSE (Health and Safety Executive) e o COPSOQ (Copenhagen Psychosocial Questionnaire), para mensurar os riscos psicossociais em diferentes grupos homogêneos dentro da empresa.
- Classificação dos riscos: Avaliar a severidade de cada risco, utilizando matrizes de risco já utilizadas para outros riscos ocupacionais.
- Elaboração de um plano de ação: Definir ações para mitigar os riscos identificados, como a criação de canais de comunicação, treinamentos de lideranças e revisão de políticas internas.
- Monitoramento contínuo: Acompanhar a eficácia do plano de ação, realizando novas mensurações em períodos específicos.
Boas práticas reconhecidas indicam que a inclusão dos riscos psicossociais no PGR é fundamental para garantir a conformidade com a NR-1.
NR-1 e Ações Trabalhistas
A NR-1 pode ser utilizada tanto a favor quanto contra as empresas em ações trabalhistas. A omissão na identificação e gestão dos riscos psicossociais pode ser utilizada pelos trabalhadores ou sindicatos para presumir o nexo causal entre o adoecimento e o trabalho.
Por outro lado, as empresas que adotarem medidas proativas e demonstrarem preocupação com a saúde mental de seus colaboradores poderão utilizar a NR-1 a seu favor, apresentando evidências de seus esforços para mitigar os riscos psicossociais.
Responsabilidades na Terceirização
Em casos de terceirização, as responsabilidades pela gestão dos riscos psicossociais devem ser compartilhadas entre a empresa contratante e a empresa prestadora de serviços. É fundamental que haja diálogo e integração entre os respectivos SESMTs e RHs para garantir um ambiente de trabalho saudável para todos os colaboradores.
O Papel Estratégico do RH
A área de Recursos Humanos (RH) desempenha um papel fundamental na gestão dos riscos psicossociais. Diferentemente de outros riscos ocupacionais, que são mais focados nos profissionais de segurança e medicina do trabalho, os riscos psicossociais exigem uma atuação mais abrangente do RH, envolvendo questões como organização do trabalho, treinamento de lideranças e distribuição equitativa das atividades.
O RH deve atuar de forma integrada com os demais setores da empresa, promovendo a comunicação, o diálogo e o apoio aos colaboradores. É fundamental que a alta gestão da empresa apoie e valorize as ações de promoção da saúde mental, reconhecendo que o bem-estar dos colaboradores é um investimento estratégico para o sucesso do negócio.
Saúde Mental como Estratégia de Negócios
Cuidar da saúde mental dos trabalhadores não é apenas uma obrigação legal, mas também uma estratégia inteligente para aumentar a produtividade e a sustentabilidade dos negócios. Análises estruturadas demonstram que o adoecimento dos colaboradores impacta diretamente a produtividade, gerando custos com absenteísmo, presenteísmo, rotatividade e afastamentos.
Ao investir na saúde mental de seus colaboradores, as empresas podem reduzir esses custos, aumentar o engajamento e a motivação, melhorar o clima organizacional e fortalecer sua imagem no mercado.
Transformando a Gestão da Saúde em Valor Agregado
Para transformar a gestão da saúde em valor agregado, as empresas podem adotar as seguintes estratégias:
- Gerenciamento ativo dos atestados médicos: Identificar os principais problemas de saúde que afetam os colaboradores e implementar ações preventivas e de acompanhamento.
- Qualidade dos exames ocupacionais: Garantir que os exames ocupacionais sejam realizados de forma completa e criteriosa, identificando os riscos e as necessidades de cada colaborador.
- Programas de promoção da saúde mental: Oferecer programas de apoio psicológico, atividades de relaxamento e outras iniciativas que promovam o bem-estar dos colaboradores.
- Comunicação transparente: Manter os colaboradores informados sobre as ações da empresa em relação à saúde mental e incentivar o diálogo aberto sobre o tema.
Principais Conclusões:
- A saúde mental no trabalho é uma preocupação crescente, impulsionada pelo aumento nos afastamentos relacionados a transtornos mentais e comportamentais.
- A NR-1 exige que as empresas incluam os fatores psicossociais no gerenciamento e no PGR.
- O setor de vigilância e segurança privada apresenta particularidades que o tornam especialmente vulnerável aos riscos psicossociais.
- A gestão dos riscos psicossociais exige uma atuação integrada do RH, do SESMT e da alta gestão da empresa.
- Investir na saúde mental dos colaboradores é uma estratégia inteligente para aumentar a produtividade e a sustentabilidade dos negócios.
A adaptação à NR-1 e a gestão dos riscos psicossociais representam um desafio para as empresas, mas também uma oportunidade de construir um ambiente de trabalho mais saudável, produtivo e sustentável. Ao adotar uma abordagem estratégica e proativa, as organizações podem proteger a saúde mental de seus colaboradores e garantir o sucesso de seus negócios.
Este artigo é baseado no vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=yL36w1QmWzc